
A "verdade por fim prevalece", garantiu há uns anos Vicente Belda. As palavras do ex-director desportivo da Kelme/Comunitat Valenciana foram proferidas depois de um juiz de instrução de Madrid ter arquivado um processo, aberto após denúncias de Jesús Manzano, sobre o esquema de doping naquela equipa. Tribunais, colegas e dirigentes do ciclismo desvalorizaram, desmentiram e criticaram Manzano. Mas a Guarda Civil espanhola aproveitou as informações e com isso desmantelou duas das maiores redes de dopagem até agora descobertas no desporto profissional.
Foi em 2004 que Jesús Manzano abalou o ciclismo ao explicar no diário desportivo As como se dopa um ciclista, as técnicas usadas para ludibriar os controlos antidopagem e as situações em que correu perigo de vida com os dopantes fornecidos ou administrados pelos médicos da Kelme.
Hein Verbruggen, na altura presidente da União Ciclista Internacional (UCI), foi um dos dirigentes que desvalorizou as denúncias. Argumentou que a única coisa certa era que se tratava "de mais um caso de dopagem", que "ninguém controla o doping como a UCI" e que "quando a imprensa começa a pagar por estas histórias há corredores que dão problemas" (o As terá pago ao ciclista).
Seis meses antes da Operação Puerto, o maior escândalo de doping na história do ciclismo, Manzano comentou no As o teste positivo de Roberto Heras (vencedor desclassificado da Vuelta) alertando para "o clã canário do doutor Eufemiano Fuentes" e para o facto de haver "um médico supostamente reformado" com "uma lista muito gorda" de clientes "ciclistas e de outros desportistas". Quando a Operação Puerto foi conhecida publicamente, em Maio de 2006, ficou a saber-se que o esquema desmantelado pelas autoridades tinha Fuentes como cabecilha.
Quase quatro anos depois, a Guarda Civil voltou a dar razão a Manzano, desmantelando nova rede de dopagem, desta vez dirigida por outro dos médicos da Kelme, Walter Virú. Recentemente, o As revelou que, na Operação Grial, os agentes apreenderam a Virú documentos semelhantes aos que Manzano apresentou em 2004 como provas da dopagem na sua ex-equipa. "Agora, vários jornais que me tinham atacado, ignorado ou chamado de mentiroso escrevem coisas como 'Manzano já apontou para Virú em 2004. (...) Ao fim ao cabo, parece que Jesús Manzano não é tão mentiroso", escreveu o ex-ciclista no diário desportivo.
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